Blog do Júnior Bocelli

Estudos bíblicos, reflêxões, devocionais, histórias e artigos em geral.

Nossos “Pedros” invejaram os “Simãos”

Nossos "Pedros" invejaram os "Simãos"

Existe uma narrativa no livro de Atos que contém vários elementos reveladores sobre a diferença entre a espiritualidade pagã e a espiritualidade do Evangelho, do ponto de vista dos seus ministros. Trata-se do texto encontrado no capítulo 8, que vem descrevendo como espalhou-se a pregação do Evangelho após o apedrejamento de Estevam. O trecho em que estou particularmente interessado conta-nos acerca de um episódio envolvendo o apóstolo Pedro e um feiticeiro conhecido nas redondezas de Samaria como Simão.

O texto começa descrevendo Simão como alguém que tornou-se conhecido entre os samaritanos praticando a feitiçaria. Ele se considerava um homem muito importante, porém, veremos no decorrer do texto que por trás dessa arrogância escondia-se um Simão amargurado e ganancioso, que usava sua magia para seduzir as pessoas e dominá-las. O povo impressionado com o poder de Simão considerava-o como o representante do “Grande Poder divino”. Acompanhe o texto:

Um homem chamado Simão vinha praticando feitiçaria durante algum tempo naquela cidade, impressionando todo o povo de Samaria. Ele se dizia muito importante, e todo o povo, do mais simples ao mais rico, dava-lhe atenção e exclamava: “Este homem é o poder divino conhecido como Grande Poder”. Eles o seguiam, pois ele os havia iludido com sua mágica durante muito tempo.

Porém, quando Filipe chegou em Samaria e começou a anunciar as Boas Novas do Reino de Deus, diz o texto que o povo deu unânime atenção ao que ele dizia, pois o Senhor através dele realizara vários sinais miraculosos; na medida em que os samaritanos iam crendo na Palavra, iam também sendo batizados. Diz o texto que todos esses acontecimentos (a oportunidade de ouvirem as Boas Novas e os milagres operados por Deus através de Filipe) causaram grande alegria no meio do povo. Filipe, ao contrário de Simão, não tinha interesse em iludir e dominar pessoas, tornar-se o “Representante do Grande Poder” e nem tampouco considerava-se muito importante; é neste espírito que o Evangelho verdadeiro é anunciado, acompanhado da operação divina, que causa alegria em todos aqueles que crêem.

Quando a multidão ouviu Filipe e viu os sinais miraculosos que ele realizava, deu unânime atenção ao que ele dizia. Os espíritos imundos saíam de muitos, dando gritos, e muitos paralíticos e mancos foram curados. Assim, houve grande alegria naquela cidade. […] quando Filipe lhes pregou as boas novas do Reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, creram nele, e foram batizados, tanto homens como mulheres.

Sem nenhuma pretensão de conseguir seguidores para si próprio, Filipe desiste do poder que podia ter sobre os samaritanos (já acostumados com o domínio de Simão) entregando-os a Jesus e a Sua Palavra. É nesse ponto que outra coisa impressionante acontece:

O próprio Simão também creu e foi batizado, e seguia Filipe por toda parte, observando maravilhado os grandes sinais e milagres que eram realizados.

Devemos observar aqui que alguém pode afirmar “crer no Evangelho” e até mesmo “ser batizado” sem que necessariamente tal pessoa tenha crido de fato no Evangelho como um bem precioso para a sua alma, a semelhança da ilustração feita por Jesus de “um homem caminhando por um campo, encontrando nele um grande tesouro, vende tudo o que tem e adquire o campo para si”. Ninguém de fato creu no Evangelho apenas porque está maravilhado devido a realidade de “sinais e milagres”. Até mesmo Jesus não acreditava nessas “conversões”, como diz João no evangelho:

Enquanto estava em Jerusalém, na festa da Páscoa, muitos viram os sinais miraculosos que ele estava realizando e creram em seu nome. Mas Jesus não se confiava a eles, pois conhecia a todos. Não precisava que ninguém lhe desse testemunho a respeito do homem, pois ele bem sabia o que havia no homem.

Pois alguns desses são apenas curiosos pelo mundo espiritual e muitos estão apenas interessados em conseguir algum favor divino que atenda ao imediato. Outros, o pior tipo, fica imaginando o que faria caso tivesse tal poder em suas mãos. Veremos que Simão logo cairia neste último grupo. Antes devemos notar o fato de que Simão, maravilhado pelos sinais, seguia a Filipe onde quer que ele fosse. Vemos que Simão estava basicamente interessado no que Filipe estava realizando, não tendo tempo de alegrar-se na própria salvação (o que lhe traria paz ao coração), mas transformou-se apenas em um seguidor de homens.

O texto diz que quando os apóstolos em Jerusalém ficaram sabendo que o povo em Samaria havia recebido com bom coração a Palavra, enviaram para lá Pedro e João para auxiliarem Filipe no seu trabalho. É neste ponto que aquilo que existia em relação a “fé em Jesus” no coração de Simão nos é revelado. Diz o texto que Simão, vendo que o Espírito Santo era dado ao povo pela imposição de mãos dos apóstolos, ofereceu dinheiro para que Pedro lhe passasse essa “unção”.

Vendo Simão que o Espírito era dado com a imposição das mãos dos apóstolos, ofereceu-lhes dinheiro e disse: “Dêem-me também este poder, para que a pessoa sobre quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo”.

A breve alegria de Simão por ter ouvido o Evangelho, crido, sido batizado e, mais recentemente, visto que as pessoas recebiam o Espírito Santo por imposição de mãos (manifestando de forma visível) como o “falar em outras línguas”, foi rapidamente substituída pela ganância. Os seus velhos vícios pagãos começavam a aflorar novamente; Simão começava a imaginar como esses dons e fenomenologias podiam tornar-se para ele um ótimo negócio. Talvez ele até recuperasse os seguidores que havia perdido com a chegada do Evangelho.

É de Simão que nasce o que ficou conhecido históricamente como Simonia, que nada mais é do que a venda dos favores e bençãos divinas, cargos eclesiásticos, dons espirituais e etc. Todas as igrejas que se propõe a negociar as bençãos de Deus, seja no Catolicismo Romano, ou Protestantismo, ou Pentecostalismo ou Neopentecostalismo, tem um mesmo pai: Simão, o feiticeiro.

Porém, Pedro, na mesma hora repreendeu Simão dizendo:

Pedro respondeu: “Pereça com você o seu dinheiro! Você pensa que pode comprar o dom de Deus com dinheiro? Você não tem parte nem direito algum neste ministério, porque o seu coração não é reto diante de Deus. Arrependa-se dessa maldade e ore ao Senhor. Talvez ele lhe perdoe tal pensamento do seu coração, pois vejo que você está cheio de amargura e preso pelo pecado”.

Se Pedro tivesse aceitado a oferta de Simão talvez teria nascido em Samaria a primeira igreja neopentencostal ou pentecostal na sua versão mais safada, que tem o seu crescimento (tanto do número de fiéis, quanto da arrecadação) baseado em sinais milagrosos e sobrenaturais. Hoje os que se dizem apóstolos de Cristo não têm o mesmo caráter de Pedro, pois não exitam em vender o dom do Espírito Santo, curas, prosperidade material entre outras coisas.

Uma vez que pessoas que agem dessa maneira não têm o coração reto diante de Deus e, portanto, como disse Pedro, não possuem parte nem direito algum no ministério do Espírito Santo, essas manifestações espirituais (na sua maioria bizarras como podemos achar no Youtube) não podem proceder de Deus. São em sua maioria histerias, fenômenos paranormais e psíquicos; se bem que num ambiente com mentira e perversidade dessa natureza não é difícil que tenham também a colaboração de demônios.

Pedro descreveu com exatidão o estado do coração de Simão. O homem que considerava a si próprio como um “Grande Poder”, agora, com a chegada do Evangelho, perdera a importância, o domínio que tinha sobre as pessoas e a sua fonte de lucro. Se houve algum sentimento sincero de alegria no coração de Simão por ter recebido o Evangelho, agora esse sentimento já havia sido substituído pela ganância e o desejo perverso de recuperar os seus seguidores.

Pessoas dispostas a corromper algo genuíno e espontâneo (como o que estava acontecendo em Samaria) por causa de ganância e sede e poder são como Simão: amargurados e com o coração preso pelo pecado. Quando o Evangelho simples vai aos poucos libertando as pessoas, os Simãos ficam cheios de inveja e com medo de perderem o poder sobre as consciências e também a sua fonte de lucro.

Para completar, ao ouvir a repreensão de Pedro, Simão ficou apavorado:

Simão, porém, respondeu: “Orem vocês ao Senhor por mim, para que não me aconteça nada do que vocês disseram”.

Apesar de Pedro recomendar a Simão que orasse a Deus pedindo perdão, ele pede para que os apóstolos orem por ele. Essa resposta de Simão revela um outro dogma pagão do qual ele ainda não havia se libertado: o de acreditar que a mediação entre o povo e as divindades pode ser feita apenas por sacerdotes especiais, não sendo possível uma relação direta entre deus e o povo.

Às vezes alguns Simãos me escrevem, achando que estou perseguindo-os, pois, uma vez que eles mesmos só “pregam” por dinheiro ou por qualquer outro desejo perverso, acham que sou igual a eles. Ficam tentando criar um motivo para eu ser tão franco e verdadeiro, pois não acreditam que um homem pode agir em amor em favor da Vida. Esses nunca tiveram nada de Deus em si próprios e ficam encucados quando alguém, pela vontade de Deus, decide simplesmente cumprir o ministério de Cristo.

O que nos falta hoje são homens com o caráter de Pedro. Vendo a situação do mundo cristão hoje, temos a impressão de que a igreja de Simão, o mágico, ganhou a disputa com Pedro. Antes, Simão invejou a Pedro, mas hoje Pedro inveja Simão, mas o que é elevado entre os homens e abominação diante de Deus. Esses que se diziam, por exemplo, contra a macumbaria, foram aos poucos invejando a posição do “Pai de Santo”. O lugar do bruxo foi ambicionado por aqueles que se diziam discípulos de Jesus, pois o que vemos hoje em dia são pessoas candidatando-se a gurus, mestres, pais-de-santo, guia espiritual e etc, em nome de Jesus.

Para terminar podemos analisar a última parte do texto imaginando como teria terminado a história caso Pedro aceitasse a oferta de Simão. O texto diz:

Tendo testemunhado e proclamado a palavra do Senhor, Pedro e João voltaram a Jerusalém, pregando o evangelho em muitos povoados samaritanos.

Se Pedro tivesse aceitado a oferta de Simão veríamos aqui o nascimento da primeira seita evangélica. Em cada povoado samaritano por onde eles passassem e fossem atraindo a atenção do povo abririam uma nova filial da seita. Talvez até fossem os responsáveis pelos primeiros “templos cristão” e pela criação do primeiro sistema de arrecadação de dinheiro em massa com tentáculos por toda a Samaria. Chegando em Jerusalém, construiriam o “templo sede” da nova seita cristã; maior e mais luxuoso que o templo dos judeus. Onde já se viu deixar todo esse povo livre?!

Já que o negócio seria atrair pessoas com sinais miraculosos, talvez Pedro e Simão criassem juntos as primeiras campanhas de curas e milagres; Pedro contribuiria no processo com o “nome de Jesus” e Simão com seu talento pagão de negociar as bençãos de Deus. Imagine, a primeira “Sexta-feira da libertação”. Pedro, que era Judeu, não teria problemas em fuçar as Escrituras achando temas para as campanhas da nova seita.

Essas são alguma suposições, podendo até parecerem engraçadas (e são mesmo). Porém, devemos lembrar elas foram feitas com base em exemplos históricos reais e atuais, inclusive.

Escrito por Júnior Bocelli

Júnior Bocelli tem 31 anos, é Bacharel em Física, mas se deu bem mesmo trabalhando como web designer e professor; CEO da iCriação - Sistemas Web e Desktop e funcionário público. Amante de Jesus e do Evangelho, dedica parte do seu tempo a ajudar pessoas que querem Deus, mas não suportam mais a religião.

4 Comentários so far.

  1. Dani says:

    Parabéns pelo texto, Junior!! Tenho acompanhado o seu site há um tempo e percebido o quanto você é embasado na Palavra. Você consegue ser coerente e coeso em suas idéias, sempre recheando o seu texto com citações, o que torna o teu trabalho bem profundo (ninguém poderá chamá-lo de superficial, jamais!). E, para acrescentar, o tema pelo qual você tem se debruçado aqui em seu site, por si só, já é um tema bastante polêmico e interessante. Fico admirada com a tua coragem em questionar coisas que nos foram impostas pelas “instituições” e que, muitas vezes, preferimos deixar na indiferença (a indiferença muitas vezes nos traz comodidade).
    Parabéns mais uma vez!! Sou sua leitora assídua, rs.

    Dani Florido

  2. Daniele,

    Fico feliz que você e o Diogo gostem de ler o meu site. Ficará claro com o tempo que o objetivo do site é fazer com que as pessoas amem a Jesus acima de todas as coisas e também que amem o próximo como a amam a elas mesmas.

    Nessa luta, que como podemos ver Jesus nos evangelhos, às vezes é necessário desfazer os ídolos nas mentes das pessoas; bem como desfazer as mentiras em que elas acreditam afim de se tornarem indiferentes em relação ao próximo.

    Que o Senhor nos ajude a sermos úteis a nossa geração, amém.

  3. Bonillo says:

    Olá Júnior Bocelli.

    Me esclareça duas dúvidas : Dar alívio a uma alma no purgatório é Dom de Deus ou dom Dos homens ?

    A missa de 7º dia tem um propósito “X” certo ? Os frutos espirituais que nascem desse ato são Dom de Deus ou dos homens ?

  4. Monsueto Araujo de Castro says:

    ENGANAR AS PESSOAS EM NOME DE JESUS:É com tristeza que vejo muitos pregadores desonestos, enganando as pessoas em nome de JESUS. É muita gente safada, visando apenas dinheiro, mais dinheiro, falando o nome de JESUS. Você para alcançar ou ser atendido por DEUS, não precisa pagar ou dar dinheiro pra ninguem, é só fazer o pedido com fé. Agradeça quando for atendido. Podendo, ajude sim.É importante participar e ajudar as pessoas. Existem muitas instituíções religiosas sérias, procure obter informações,antes de se tornar membro de alguma delas.


Conheça também