Blog do Júnior Bocelli

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Será que o diabo está mesmo “debaixo do seu pé”?

Será que o diabo está mesmo "debaixo do seu pé"?

Tem muita gente cheia de ódio vivendo um projeto espiritual maligno e afirmando que o “diabo está debaixo do seu pé”. A primeira coisa que precisamos fazer é tentar entender o que geralmente a pessoa quer dizer quando faz essa afirmação, pois, o que constatamos na maioria das vezes é a existência de uma conciliação entre o antigo pensamento pagão e uma simbologia retirada do Evangelho. Tal doutrina baseia-se em barganhas feitas entre o crente e a divindade, que lhe dá certa proteção e vantagens durante a vida.  A grande maioria dos cristãos apenas fez uma opção entre deuses, pois acredita que o deus cristão é o mais poderoso dentre os outros, não tendo havido nenhuma mudança de consciência; é interessante para os seus líderes espirituais que esses cristãos continuem com sua mentalidade pagã, pois o sistema religioso sobrevive dessa militância.

Na melhor das hipóteses, quando alguém afirma que “o diabo está debaixo do seu pé”, está querendo dizer que as aflições dessa vida não lhe alcançarão; garantia obtida anteriormente através de rituais e benzimento, porém, usando uma nova simbologia, a mesma garantia é obtida através de orações, unções, ofertas e freqüência ao templo. Observe que existe aí uma grande diferença da proposta de Jesus, pois o que se tem é a confiança nas “suas obras” e não a fé simples em Jesus e o descanso na sua Graça.

“Dirigindo-se aos seus discípulos, Jesus acrescentou: “Portanto eu lhes digo: Não se preocupem com sua própria vida, quanto ao que comer; nem com seu próprio corpo, quanto ao que vestir. A vida é mais importante do que a comida, e o corpo, mais do que as roupas. Observem os corvos: não semeiam nem colhem, não têm armazéns nem celeiros; contudo, Deus os alimenta. E vocês têm muito mais valor do que as aves! Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida? Visto que vocês não podem sequer fazer uma coisa tão pequena, por que se preocupar com o restante? “Observem como crescem os lírios. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu lhes digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, quanto mais vestirá vocês, homens de pequena fé! Não busquem ansiosamente o que comer ou beber; não se preocupem com isso. Pois o mundo pagão é que corre atrás dessas coisas; mas o Pai sabe que vocês precisam delas. Busquem, pois, o Reino de Deus, e essas coisas lhes serão acrescentadas. “Não tenham medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar-lhes o Reino.”

A proposta de Cristo é para que confiemos no amor de Deus, não estando ansiosos com as coisas dessa vida. Crendo que mesmo que pareça suicídio viver  a vida colocando em primeiro lugar o Reino de Deus (que nada mais é que viver em Amor, Verdade e Justiça, sempre em favor da Vida), o Pai não nos deixará desamparados. Ele ainda acrescenta que são os pagãos que se preocupam com essas coisas. De fato, todas as antigas civilizações realizavam sacrifícios para as colheitas e chuvas, por exemplo. Caso você pense que “buscar o Reino de Deus” seja essa militância a qual condeno, aconselho apenas que continue a leitura do texto:

“Vendam o que têm e dêem esmolas. Façam para vocês bolsas que não se gastem com o tempo, um tesouro nos céus que não se acabe, onde ladrão algum chega perto e nenhuma traça destrói. Pois onde estiver o seu tesouro, ali também estará o seu coração. “Estejam prontos para servir, e conservem acesas as suas candeias, como aqueles que esperam seu senhor voltar de um banquete de casamento; para que, quando ele chegar e bater, possam abrir-lhe a porta imediatamente.”

Ou seja, buscar em primeiro lugar o Reino de Deus significa entregar-se de maneira incondicional em favor da vida, pois o Deus que é invisível escolheu ser servido no próximo.

O cristão com mentalidade pagã perde a oportunidade de “viver pela fé”, confiando em Deus sem medo, acreditando que aquilo que ele está recebendo da vida, seja bom ou seja mau, é o bem de Deus para si; o que Jesus propõe é uma libertação no sentido de que o mau perde o poder de nos fazer mal, pelo simples fato de que confiamos no Seu amor e temos a esperança no Reino que virá. Se não for assim você sempre será um mero escravo das circunstâncias. É triste ver que a maioria dos que se dizem “filhos do Reino” vive sob constante medo e desconfiança, uma vida angustiada, embora disfarcem esse sentimento num surto de megalomania, pois têm medo de admitirem para si próprio que não crêem em Deus de fato. Transformaram o culto em uma experiência nervosa, numa catarse, onde o crente extravasa todas as suas angustias em gritos, danças, músicas de guerra e frenesi. Desenvolveram até algumas expressões não bíblicas como “o sangue de Jesus tem poder”, ou “tá amarrado em nome de Jesus”, que como um mantra, apaziguam a mente do crente quando ele se depara com o contraditório no dia a dia (nem que seja um simples “eu acho que você está ficando gripado”).

Você pode estar lendo essas coisas e me julgando, dizendo que “não sou espiritual”. Quanto a isso digo que pouco espiritual é você que tornou-se um feiticeiro cristão por não poder simplesmente crer em Jesus e seguir os Seus mandamentos. Porventura a Lei não diz a mesma coisa? Pois, quando Elias enfrentou os 450 profetas de Baal no Monte Carmelo, diz a narrativa que estes profetas clamaram a metade de um dia com gritos, danças e sacrifícios diversos, no entanto, o profeta Elias não entrou em competição de devoção com esses profetas para provar o seu amor por Deus; mas somente ajeitou as pedras do velho altar num gesto simbólico para lembrar o povo, que de longe observava, da antiga aliança, e, numa pequena prece (também simbólica), obteve resposta de Deus. Ora, será que “Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com ele, e de graça, todas as coisas?”

Todas essas coisas são terríveis, mas existe ainda um outro significado atribuído a afirmação em discussão ainda mais perverso que este. Trata-se do pensamento de que Deus executa contravenções na história com o objetivo de “colocar por cabeça” os “fiéis”, significando dizer que os crentes têm o direito de dominar o mundo (e o seu próximo) política e economicamente; revelando não só o “amor ao mundo e toda a sua concupiscência”, mas também um “mau caratismo” como marca desse novo perfil de cristãos.

Contrariando o que Jesus disse sobre o seu Reino, a saber:

“Certa vez, tendo sido interrogado pelos fariseus sobre quando viria o Reino de Deus, Jesus respondeu: “O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Aqui está ele’, ou ‘Lá está’; porque o Reino de Deus está dentro de vocês”.”

e em outro lugar

“Disse Jesus: “O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui”.”

nem mesmo quanto a organização hierárquica há semelhança com os poderes mundano:

“Jesus os chamou e disse: “Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.”

Os cristãos acreditam que é o desejo de Deus que eles estejam em posições de destaque no mundo, pois, procedendo dessa maneira, estarão construindo o Reino de Deus na Terra, contribuindo para que a “igreja” se torne visível e poderosa no mundo político econômico. Pensamento pagão que no Cristianismo teve origem com as Cruzadas (para libertar a Terra Santa das mãos dos muçulmanos), passando pela Colonização Espanhola (que destruiu as nações indígenas) e o Destino Manifesto norte-americano (responsável pelo Imperialismo), dentre muitos exemplos.

No Brasil essa doutrina teve início em alguns movimentos avivalistas, mas teve como “marco histórico oficial” quando o bispo Edir Macedo começou a mobilizar os evangélicos para a compra da Rede Record, “vamos acabar com o domínio da Rede Globo, que é Espírita”, diziam eles. Foi uma época conturbada. Os “louvores de guerra” começaram a ser introduzidos na década de 80 por Robson Rodovalho e Robert McAlister. Projetos políticos começaram a ser passados para o povo, ambicionavam (e ainda ambicionam) até mesmo um presidente evangélico. A frase “O Brasil é do Senhor Jesus” passou a significar que os crentes dominariam a nação na política e na economia.

Estes projetos que citei anteriormente foram criados por grandes organizações e têm como finalidade obter benefícios diversos. Porém, esse mesmo pensamento pernicioso passou a ser aplicado na vida pessoal do crente. Neste caso, a afirmação de que o “diabo está debaixo do seu pé” passa a significar que Deus deu o poder ao crente para derrotar seus adversários nos negócios, na vida familiar e sentimental; podendo até mesmo semear espinhos, pois o Senhor fará com que ele colha uvas e figos. Neste contexto Deus passa a ser o responsável pelo novo emprego, a vaga no vestibular, a falência do concorrente nos negócios e a esposa que vive sob constante opressão, por exemplo; fazendo com que essa nova religião se tornasse o refugio de gananciosos, invejosos e recalcados.

Quanto a esses poderes e importâncias o Evangelho é bem claro. Em primeiro lugar, é preciso notar que, segundo Jesus, é impossível que venham tais poderes sem que o homem se proste em adoração ao diabo:

“O Diabo o levou a um lugar alto e mostrou-lhe num relance todos os reinos do mundo. E lhe disse: “Eu te darei toda a autoridade sobre eles e todo o seu esplendor, porque me foram dados e posso dá-los a quem eu quiser. Então, se me adorares, tudo será teu”. Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto’”.”

(a não ser que esses novos cristãos sejam melhores do que Jesus).

Quanto a intervenção divina em questões econômicas, Jesus também deixou claro:

“Alguém da multidão lhe disse: “Mestre, dize a meu irmão que divida a herança comigo”. Respondeu Jesus: “Homem, quem me designou juiz ou árbitro entre vocês?” Então lhes disse: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”.”

Mas, e quanto a posição dos discípulos de Jesus na sociedade? Vejamos os conselhos dos apóstolos:

“Cada um deve permanecer na condição em que foi chamado por Deus. Foi você chamado sendo escravo? Não se incomode com isso. Mas, se você puder conseguir a liberdade, consiga-a. Pois aquele que, sendo escravo, foi chamado pelo Senhor, é liberto e pertence ao Senhor; semelhantemente, aquele que era livre quando foi chamado, é escravo de Cristo.”

Esses são alguns dos exemplos dentre os quais eu poderia citar mostrando qual a importância dessas coisas na vida dos discípulos de Jesus. O chamado de Jesus é para a servidão em amor a vida, pois é esse o exemplo que Ele nos deu:

“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz!”

Ora, que mesmo sentimento é esse? Pois Cristo abriu mão do seu direito de ser Deus, “esvaziando-se a si mesmo”. Nós, no entanto, somos tentados a nos tornarmos à semelhança de Satanás que usurpou ser semelhante à Deus, não em Amor e Graça, mas em domínio e poder. O que vejo hoje em dia são os que se dizem cristãos seduzidos pelos poderes e riquezas desse mundo, assim como israelitas nos dias de Isaías estavam seduzidos pelo “deus Destino” e a “deusa Fortuna”. Nesse mesmo espírito, a maioria dos cristãos está seduzida por esses deuses; chegando até mesmo a afirmar que seus próprios desejos são os “sonhos de Deus” (deusa Fortuna), ou que eles, os crentes, possuem a “marca da promessa” (deus Destino).

Qual o significado então para a afirmação sobre o diabo? Vejamos onde essa expressão foi usada pelo apóstolo Paulo; um texto muito simples, mas que não é capaz de agradar as massas como as mentiras tão aceitas e que citei anteriormente. Senão, vejamos:

“quero que sejam sábios em relação ao que é bom, e sem malícia em relação ao que é mau. Em breve o Deus da paz esmagará Satanás debaixo dos pés de vocês.”

Portanto, vemos que o único jeito de colocarmos “o diabo debaixo do nosso pé” é deixando toda a malícia (que nada mais é que a nossa natureza carnal), que provém do nosso egoísmo e  falta de amor, e que gera divisões, invejas, ódios, soberbas e maquinações contra o próximo; dando lugar a todo pensamento bondoso, que provém do amor e que se transforma em atitudes para com o próximo. Faz bastante sentido o que Paulo diz, pois, segundo o Gêneses, a serpente alimenta-se do pó da terra, significando dizer que a ação do diabo na Terra está limitada a produção humana no mundo.

Categorias: Meus artigos, Reflexões

Escrito por Júnior Bocelli

Júnior Bocelli tem 31 anos, é Bacharel em Física, mas se deu bem mesmo trabalhando como web designer e professor; CEO da iCriação - Sistemas Web e Desktop e funcionário público. Amante de Jesus e do Evangelho, dedica parte do seu tempo a ajudar pessoas que querem Deus, mas não suportam mais a religião.


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