Blog do Júnior Bocelli

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O avivamento fundamentalista

O avivamento fundamentalista

O movimento evangélico brasileiro se desfigurou tanto que já não pode ser identificado com o Protestantismo.

Infelizmente, é possível descrevê-lo apenas como uma nova tendência religiosa, simplória em suas análises conceituais, supersticiosa em sua espiritualidade, obscurantista em sua convivência social, imediatista em suas demandas espirituais e guetoizada em sua tolerância cultural.

As pilastras que alicerçaram o Princípio Protestante foram, sistematicamente, abaladas pelo avivamento evangélico neo-fundamentalista que:

1. Mina a percepção da Graça

Quando Martinho Lutero despertou para o texto bíblico, “o justo viverá da fé”, ele não atinou que acendia o rastilho de pólvora que detonaria a Reforma Protestante. O tempo estava maduro.

O cristianismo medieval havia se infectado pelo paganismo; sobravam espertalhões vendendo falsas relíquias e objetos milagrosos para “abrirem as janelas da bênção celestial”.

O monge agostiniano percebeu, entretanto, que o amor de Deus não podia ser provocado por ritos religiosos. Graça, para Lutero, era uma iniciativa sempre unilateral de Deus, gratuita e constante.

Ele intuiu que Deus não ficava de braços cruzados, cenho franzido, esperando que seus filhos o provocassem para derramar suas bênçãos. Ele escancarou a verdade de que as indulgências, vendidas pelo cardeal Tetzel, eram um embuste e não tinham poder para reduzir as penas do purgatório. Lutero solapava o poder da igreja, que propagandeava ser dona das senhas que liberavam o favor divino.

Passados tantos séculos, o movimento evangélico, outrora um ramo do protestantismo, abandonou a pregação da Graça – que pode até constar nos compêndios teológicos, mas não tem qualquer densidade no dia a dia das pessoas.

Lamentavelmente, os evangélicos retrocederam aos tempos do catolicismo medieval. Observa-se com facilidade, na maior parte das igrejas, o incentivo de que se usem amuletos “como ponto de contato para a fé”. O paganismo e a feitiçaria se disfarçaram de piedade e a maioria dos crentes só se preocupa em aprender a controlar o mundo sobrenatural para serem prósperos ou para resolverem seus problemas existenciais.

2. Transforma a fé numa força que produz milagres

Acabo de ler “A Piedade Pervertida” (Grapho Editores) de Ricardo Quadros Gouvêa. Sua análise sobre a influência do fundamentalismo na prática da espiritualidade é crua:

“O louvorzão, assim como as vigílias e as reuniões de oração, e até mesmo o mais simples culto de domingo, muitas vezes não passam de um tipo de superstição que beira a feitiçaria, uma vez que ele é realizado com o intuito de ‘forçar’ uma ação benévola da parte de Deus, como se o culto e o louvor fossem um ‘sacrifício’, como os antigos sacrifícios pagãos. Neste caso, não temos mais liturgias, mas sim teurgias, nas quais procura-se manipular o poder de Deus” (p.28).

3. Lê a Bíblia como se Deus a tivesse ditado

Os fundamentalistas enxergam as Escrituras como descidas diretamente do céu. É de suma importância para eles que a letra seja sagrada. Assim a leitura da Bíblia não precisa considerar seu contexto histórico, nem sua riqueza literária.

Para a maioria dos evangélicos, a Bíblia é aceita como um oráculo. Para eles, basta abri-la em qualquer página, pinçar um versículo e obter a mensagem que vem de Deus. Essa prática de fazer loteria com as narrativas tornou-se comum.

Milhões acreditam no poder da “caixinha de promessa” – aquele estojo com pedaços de papelão recortados, com versículos impressos. O analfabetismo bíblico é gritante entre a maioria dos crentes, eles não acham que precisem estudar a história e nem a complexidade literária da narrativa.

4. Transforma as Escrituras num compêndio de teologia sistemática

A frase mais repetida pelos crentes brasileiros sobre a Bíblia é que ela é a sua “única regra de fé e de prática”.

Ledo engano! A teologia sistemática reina acima da revelação dos dois Testamentos.

Os crentes são induzidos a crerem primeiramente em conceitos teológicos cuidadosamente inculcados, só depois vêem os textos sagrados. Pior! Quando um dogma teológico não se encaixa na narrativa bíblica, sempre haverá algum livro que faz a ginástica de ajustar a Bíblia à teologia, nunca o contrário.

Urge, entretanto, que a Bíblia seja devolvida ao seu papel de rainha da revelação, sem a interferência do teólogo que diminui sua riqueza poética, sabota sua profundidade alegórica e questiona sua intensidade mítica. A Bíblia não pode ser relegada à função de mera legitimadora de conceitos humanos.

Já fui duramente acusado pelos fundamentalistas de tentar “minar” a soberania de Deus. Alguns já apontaram seus dedos virtuais e, com as veias latejando, tentaram me fritar por “ousar diminuir a onipotência divina”.

Nunca afirmei que Deus não fosse onipotente, jamais neguei sua prerrogativa de reinar soberanamente. Contudo, reivindico o direito de questionar, não Deus, mas o que a filosofia e a teologia definiram como soberania.

Devolvo a palavra ao calvinista Ricardo Quadros Gouvêa:

“A doutrina da soberania divina foi transformada, pela ortodoxia cartesiana, e é ensinada pelos fundamentalistas, como uma forma de fatalismo. Tudo já está determinado por Deus, portanto não há qualquer liberdade resguardada ou concedida aos homens. Este fatalismo nada tem de cristão ou de bíblico, mas está ancorado na filosofia grega e no paganismo pré-cristão. Isso gerou, na alegada ortodoxia reformada, o predestinacionismo, este cancro do calvinismo, uma ênfase injusta com o próprio pensamento de Calvino, e que permite aos homens irem direto ao inferno para cumprirem a vontade de Deus” (p.26).

5. Recusa a doutrina da “Imago Dei”

Esta expressão latina expressa a antiqüíssima percepção teológica de que mesmo os piores seres humanos guardam a “Imagem de Deus”. Todas, absolutamente todas, as pessoas possuem uma dignidade que deve ser protegida.

Assim, poetas, músicos, escultores, dramaturgos e saltimbancos nordestinos, são arautos da beleza que brota de Deus. Não importa que sejam ateus ou que não professem a fé de acordo com a ortodoxia cristã, todos são capazes de ações sublimes (vale recordar que o apóstolo Paulo citou poetas e escritores pagãos para referenciar sua mensagem).

Convém citar que o cristianismo mudou de eixo no final do século XX. Se nos últimos quinhentos anos os cristão eram associados ao mundo anglo-saxônico, no começo do terceiro milênio eles avançam na América Latina, África e Ásia.

A população cristã do Terceiro Mundo já é maior do que no Primeiro. Esse crescimento, contudo, traz enormes perigos, pois não representa necessariamente refinamento da fé ou maturidade existencial. Os sinais do atraso do neo-fundamentalismo são sua incapacidade de celebrar a beleza e de se misturar com o mundo (que Deus tanto amou que deu seu Filho unigênito).

O engessamento da fé pelo fundamentalismo só consegue repetir a cosmovisão medieval, a moral vitoriana e a atitude de intolerância dos antigos donos da verdade. O sucesso do crescimento numérico dos evangélico produz neles um triunfalismo difícil de ser contestado e que desemboca nessa soberba paralisante.

Urge que alguns resistam a ortodoxolatria fundamentalista; ela não pode ser hegemônica na nova geografia da fé cristã.

E perseveremos, apesar das pedradas, em mostrar que o anúncio do Reino é muito mais rico e abrangente do que qualquer teologia ou movimento.

O Cordeiro de Deus é digno pelo seu sacrifício.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

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Escrito por Júnior Bocelli

Júnior Bocelli tem 31 anos, é Bacharel em Física, mas se deu bem mesmo trabalhando como web designer e professor; CEO da iCriação - Sistemas Web e Desktop e funcionário público. Amante de Jesus e do Evangelho, dedica parte do seu tempo a ajudar pessoas que querem Deus, mas não suportam mais a religião.

4 Comentários so far.

  1. Daniel Costa says:

    Esse Gondim é impressionante… ele mistura coisas interessantes e relevantes para avaliarmos o atual painel da igreja evangélica brasileira com o mais profundo LIXO teológico produzido até o momento… Generalizações burras, falsas inferências, associações equivocadas e um discurso hipócrita de apego às Escrituras que ele mesmo, em suas afirmações, demonstra que não tem.

  2. Daniel,

    Existe uma grande diferença entre apego às Escrituras e apego à Palavra. Olhe para Jesus e virá a Escritura tornando-se Palavra, o que passar dessa hermenêutica vem do diabo. As Escrituras têm sido mais “mãe de heresias” do que “Palavra de Deus” ao longo da história.

  3. John Knox says:

    Putz, Ricardo Gondim, o cara que disse que Deus não sabia que o Tsunami viria…

    Hahahha, o texto tava ficando cada vez mais podre, até que eu vi a raiz morta de onde tudo vinha.

    Quanto ao dono do site, lamento por você se deixar guiar por cegos.

  4. Se você tem o direito de ser um completo imbecil, o Ricardo Gondim tem o direito de pensar e de teorizar sobre o que quiser.


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