Blog do Júnior Bocelli

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Somente a fé, e não as obras, conduz a salvação

Somente a fé, e não as obras, conduz a salvação

Neste texto retirado de “Da Liberdade do Cristão”, Martinho Lutero (1483-1546) discursa sobre a importância (ou não importância) das “boas obras” na salvação do Cristão.

O PROBLEMA: Se o homem pode pecar, não deve por isso ser moralmente livre? O homem, do ponto de vista ético, é de algum modo predisposto, ou a sua vontade é totalmente livre para escolher entre o bem e o mal? Qual a importância das boas obras para a salvação da alma?

A TESE: O homem torna-se livre apenas quando se entrega à vontade de Deus. Certamente, não pode pensar em ganhar o Paraíso simplesmente colecionando o maior número de boas ações. Admitir uma relação automática e obrigatória entre ações meritórias e salvação eterna da alma reduziria Deus a um papel puramente contábil, como uma espécie de divino “notário” do bem e do mal. A onipotência de Deus implica, ao contrário, que nenhuma das suas decisões pode ser prevista ou condicionada, de modo que a principal virtude do bom cristão reside unicamente na fé, na total entrega à imperscrutável vontade de Deus.

(Trecho retirado de “Da Liberdade do Cristão”)

Liberdade e servidão coexistem na vida do cristão.

“Para que se possa entender perfeitamente o que é um cristão e em que consiste a liberdade que Cristo alcançou e doou a ele (o cristão), apresentarei duas proposições: 1) um cristão é o senhor livre de todas as coisas e não está submetido a ninguém; 2) um cristão é o servo de todas as coisas e está submetido a todos. Essas duas proposições são encontradas claramente em Paulo: eu sou livre em tudo e me fiz servo de todos. E também: Não deveis ser devedores de nada a ninguém, a não ser amar-vos reciprocamente. Mas o amor é prestativo e submisso àquele que ama. Assim está escrito também de Cristo: Deus enviou seu filho, nascido de uma mulher e submetido a lei.”

O homem possui duas dimensões, uma espiritual e uma corporal.

“Para compreender essas duas asserções, contraditórias entre si, da liberdade e da servidão, devemos pensar que todo cristão tem dupla natureza: espiritual e corporal. Pela alma é chamado de homem espiritual, novo, interior; pela carne e o sangue é chamado de homem corporal, velho exterior. E é exatamente devido a essa diferença que a Escritura fala em termos contraditórios entre si, como acabei de dizer, de liberdade e de escravidão .”

A dimensão espiritual não é influenciada pela dimensão corporal e vice-versa.

“Se nós consideramos o homem interior e espiritual, para entender o que se exige para que ele seja assim e chamado de cristão justo e livre, é evidente que nenhuma coisa exterior pode fazê-lo justo e livre e justo (…) posto que a justiça e a sua liberdade e, inversamente, a sua malícia e a sua servidão não são corporais e nem exteriores. Como a alma pode ser ajudada por um corpo independente, robusto e saudável, que coma, beba, viva como quer? E, inversamente, que prejuízo traz à alma o fato de o corpo ser prisioneiro, doente e fraco, faminto, sedento e sofrer como não gostaria? Nenhuma dessas coisas chega até a alma, para libertá-la ou fazê-la prisioneira, para torná-la justa ou perversa.”

Atos, obras e comportamentos não influem na espiritualidade.

“Portanto, não ajuda a alma se o corpo veste hábitos sagrados como fazem os padres eclesiásticos, e tampouco se ele está presente nas igrejas e nos lugares consagrados; nem se ele se ocupa com coisas sagradas; nem se materialmente ele reza, jejua, faz peregrinações e realiza todas as boas ações, que sempre podem ser efetuadas por meio do corpo e no corpo.”

Atos e comportamentos podem ser hipócritas.

“Deve existir uma coisa diferente, que confira à alma integridade e liberdade. Posto que todos esses atos, obras e comportamentos podem ser exercidos também por alguém perverso, um hipócrita e um beato. Na verdade, esse tipo de comportamento só pode produzir um povo de autênticos hipócritas.”

A inobservância dos ritos não prejudica a fé espiritual.

“A alma, ao contrário, não sofre dano se o corpo veste roupas profanas, se freqüenta lugares não consagrados, não faz peregrinações, não reza e negligencia todas as ações que os hipócritas praticam, as ações a que acima nos referimos.”

Somente a leitura do Evangelho é eficaz.

“Nem no céu, nem na terra, a alma tem outra coisa para a qual viver e ser justa, livre, cristã, fora do Santo Evangelho, a palavra de Deus pregada pelo Cristo. Ele mesmo diz: Eu sou a vida e a ressurreição; quem crê em mim vive eternamente (…).”

Somente a fé conduz à salvação.

“Por isso, sensatamente, a única ação, a única ocupação de cada cristão deveria ser esta: compenetrar-se completamente da Palavra e do Cristo, exercer e fortalecer tal fé continuamente, posto que nenhuma outra ação pode fazer dele um cristão.”

Acreditar, e não operar, é a verdadeira qualidade essencial do cristão.

“Cristo disse aos judeus que lhe perguntavam o que deviam fazer para realizar obras divinas e cristãs: Esta é a única obra divina: que acrediteis naquele que Deus enviou (…).”

Os mandamentos salientam a nossa incapacidade incapacidade de observá-los. O homem não pode salvar-se apenas com suas forças.

“Porém, como é possível que a fé sozinha possa nos tornar justos e sem qualquer obra nos oferecer riqueza, quando as Escrituras prescrevem tantas leis, mandamentos, obras, estados e comportamentos? Aqui é preciso observar e considerar com determinação que somente a fé sem qualquer ação nos torna justos, livres e salvos, como melhor veremos a seguir. É preciso saber que a Sagrada Escritura inteira está dividida em duas espécies de palavras, as quais são os mandamentos, ou leis de Deus, e as garantias, ou promessas.”

Os mandamentos não são uma lista de obras que garantem a salvação. São advertências para que o homem entenda sua própria inaptidão.

“Os mandamentos nos ensinam e prescrevem diversas espécies de boas ações, mas estas, pelo fato de serem ordenadas, ainda não foram realizadas. Certamente os mandamentos encaminham-nos, mas não nos ajudam: ensinam-nos aquilo que se deve fazer, mas não nos dão a força para realizá-lo. São ordenados somente com a finalidade de que o homem saiba ver neles a sua própria incapacidade para o bem e aprenda a desesperar de si mesmo (…).”

As ações, mesmo meritórias, não produzem salvação.

“Tudo isso permite entender facilmente porque a fé tem um poder tão grande que nenhuma boa ação pode igualar-se a ela. De fato, nenhuma boa ação está tão ligada à palavra de Deus como a fé; nenhuma boa ação pode ser da alma, onde reinam somente a Palavra e a fé. Como é a palavra, assim também se torna a alma graças àquela; assim como o ferro se torna rubro como o fogo, depois da sua união com ele.”

A interioridade da fé torna o cristão livre.

“ Logo, a fé basta a um cristão e ele não precisa de nenhuma ação para ser justo; e, se não precisa de nenhuma ação, então ele está certamente desobrigado de todos os mandamentos e de todas as leis; e, se ele está desobrigado, certamente está livre. É justamente essa liberdade cristã, a fé, exclusivamente, que não comporta que possamos ficar ociosos ou praticar o mal, mas sim que não precisamos de nenhuma ação para alcançar a justificativa e a bem aventurança (…).”

Salvação somente pela fé não significa viver no ócio.

“Apesar de interiormente o homem, conforme a alma, estar suficientemente justificado por meio da fé, tendo tudo o que precisa, ele deve aumentar essa fé e essa suficiência até a outra vida; todavia, ele ainda permanece nesta vida corporal sobre a Terra e deve governar o próprio corpo.”

O homem deve agir bem a título gratuito, sem pretender que Deus lhe dê salvação eterna pelo que fez durante a vida.

“Então começam as obras, então lhe é impossível ficar ocioso, então o corpo deve ser adestrado com jejuns, vigílias, fadigas e com toda a sóbria disciplina, para que se torne obediente em conformidade com o homem interior e com a fé e não crie obstáculos nem resista, como costuma fazer, quando não é contido. Porque o homem interior está ligado a Deus, está contente, alegre pelo amos de Cristo, que tanto fez por ele, e encontra todo o seu júbilo em poder, por sua vez, servir a Deus por livre amor, gratuitamente.”

As boas ações são somente o fruto da fé interior.

“É por isso que são verdadeiras essas duas proposições: boas e justas ações não tornam jamais um homem bom e justo, mas um homem bom e justo pratica ações boas e justas; más ações não tornam jamais um homem maldoso, mas um homem maldoso pratica más ações.”

O Cristão deve ser livre, interiormente, e servo, exteriormente.

“Logo, a pessoa deve ser sempre boa e justa, antes de qualquer boa ação, e boas ações acompanham e provêm da pessoa justa e boa. Como diz Cristo: Uma árvore má não produz bons frutos. Uma árvore boa não produz maus frutos (…). A partir daí chega-se à conclusão de que um cristão já não vive em si mesmo, mas em Cristo e no seu próximo: em Cristo mediante a fé; no próximo mediante o amor. Pela fé eleva-se acima de si mesmo em Deus, por amor ele desce de Deus abaixo de si mesmo, permanecendo, contudo, sempre em Deus e no amor divino; justamente como diz Cristo: Vereis os céus abertos e os anjos subirem e descerem sobre o Filho do homem. Pois esta é a verdadeira liberdade espiritual cristã, que liberta o coração de todos os pecados, das leis e mandamentos, que ultrapassa qualquer outra liberdade, como o céu e a Terra. Que Deus nos conceda bem entendê-la e conservá-la. Amém!”

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Escrito por Júnior Bocelli

Júnior Bocelli tem 31 anos, é Bacharel em Física, mas se deu bem mesmo trabalhando como web designer e professor; CEO da iCriação - Sistemas Web e Desktop e funcionário público. Amante de Jesus e do Evangelho, dedica parte do seu tempo a ajudar pessoas que querem Deus, mas não suportam mais a religião.


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