Blog do Júnior Bocelli

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Igreja, a casa de Zeus

Igreja, a casa de Zeus

No livro de Atos dos apóstolos, no capítulo 17, vemos um episódio interessante em que Paulo, vindo de Beréia, vai até Atenas, onde encontra uma situação de idolatria tão grande que chega a ficar indignado. De fato a idolatria em Atenas era grande nos dias de Paulo; Plínio escreveu que a cidade contava com mais de 30000 estátuas de todos os tipos de deuses e que era mais fácil encontrar em Atenas uma estátua, que um homem.

“Enquanto esperava por eles (Silas e Timóteo) em Atenas, Paulo ficou profundamente indignado ao ver que a cidade estava cheia de ídolos. Por isso, discutia na sinagoga com judeus e com gregos tementes a Deus, bem como na praça principal, todos os dias com aqueles que por ali se encontravam.”

O que deixara Paulo em tamanho estado de perplexidade, como veremos ao longo do texto, não eram os deuses em si, mas sim a maneira como as pessoas se entregavam a uma devoção vã e ignorante, que é a devoção a um ídolo. A indignação de Paulo era uma declaração de amor pelos cidadãos atenienses e não um ódio pagão pelos seus deuses, como se esses eles estivessem em competição com Jesus. Pois, Paulo cria que Jesus era Nome acima de todo nome e não apenas mais um Deus entre os outros deuses. Ele mesmo diria aos de Corinto que os “os deuses desse mundo nada são no mundo”.

O texto segue dizendo que Paulo não se contentou apenas em falar sobre Jesus nas sinagogas, mas diz que ele fora para a praça principal da cidade onde se reuniam filósofos de várias escolas para discutir com eles, pois essa prática era comum em Atenas. Filósofos de diferentes escolas iam aos lugares públicos para disputarem entre si.

A nova mensagem anunciada por Paulo na cidade de Atenas não demorou muito para chamar a atenção não apenas do povo, mas principalmente dos filósofos epicureus e estóicos que passaram a discutir com ele na praça. A curiosidade sobre os ensinamentos de Paulo foi tão grande que o Areópago (uma espécie de assembléia formada por aristocratas atenienses) se reuniu para que Paulo expusesse os seus ensinamentos.

“Então o levaram a uma reunião do Areópago, onde lhe perguntaram: ‘Podemos saber que novo ensino é esse que você está anunciando? Você está nos apresentando algumas idéias estranhas e queremos saber o que elas significam’. Todos os atenienses e estrangeiros que ali viviam não se preocupavam com outra coisa senão falar ou ouvir as últimas novidades.”

Paulo começa seu discurso no Areópago, usando uma confissão de ignorância dos próprios atenienses acerca de um certo “Deus desconhecido”. A primeira coisa que devemos observar aqui é que Paulo não fez uso das Escrituras, como em Beréia, quando pregou para os Judeus. Os textos em Atos nos mostram que Paulo somente usava as Escrituras para demonstrar aos Judeus que Jesus era o Cristo, pois que valor teriam as Escrituras judaicas entre os gregos? De certo os atenienses diriam “Não queremos saber do seu Deus, pois temos os nossos. Deixe-nos em paz.”

Algumas pessoas, e até mesmo algumas igrejas, se intitulam “Bereianos”, pois o texto em Atos diz que eles, os Bereianos, eram homens nobres, e que conferiam tudo o que Paulo dizia acerca de Jesus nas Escrituras. Ora, isso é um grande erro e as pessoas que dizem isso me são engraçadas. Porque, em primeiro lugar, os Bereianos que conferiam tudo o que Paulo dizia com as Escrituras eram Judeus, e não gentios, ou seja, demonstrar nas Escrituras que Jesus haveria de nascer de uma virgem, fazer a obra que Ele fez, ser entregue aos gentios para ser morto e ressuscitar, era um assunto o qual interessava somente aos Judeus, e no máximo aos prosélitos.

Em segundo lugar, Paulo não tinha a mínima noção de que suas cartas virariam “Escrituras” para os cristãos, por exemplo; nenhum discípulo de Jesus que naquela época tenha escrito alguma coisa imaginaria que aquilo que eles estavam escrevendo viraria “Escrituras” um dia. Quando se diz Escrituras, se está falando no Pentateuco e nos Livros dos Profetas, não na bíblia como os cristãos conhecem hoje. Esse é um assunto sobre o qual já escrevi bastante e não quero me prolongar.

Paulo prossegue dizendo que o tal “Deus desconhecido”, que os atenienses adoram sem saber, é precisamente o Deus o qual ele está anunciando. Quando Paulo começa a descrever como é esse “Deus desconhecido”, vemos como esse Deus é também desconhecido pela a maioria dos cristãos que confessam o seu nome, uma vez que o cristão típico acredita que o templo/igreja é a “casa de Deus”, o lugar onde Deus mora. Porém o que Paulo diz aos atenienses, citando o profeta Isaías:

“O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor dos céus e da Terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas.”

mostra o engano de tais pessoas, pois parece óbvio que um Deus que tenha criado, e ainda cria, o Universo não tenha uma casa de habitação construída pela, e utilizando-se de, sua própria criação. Essa idéia pagã de que existam templos e lugares santos onde as divindades habitam, é interessante não só aos sacerdotes religiosos, mas também ao povo.

Aos sacerdotes é interessante porque isso lhes dá poder de manipulação, pois são eles que supostamente conhecem as mandingas e mecânicas espirituais e são eles, os oráculos divinos, que fazem a mediação entre o povo alienado e as divindades exigentes. O que se estabelece é uma relação de controle dos sacerdotes sobre os demais homens, o povo, e que é contrária ao espírito do Evangelho que diz “o maior entre vocês é aquele que é servo de todos os demais” e também que não existe outro mediador entre Deus e os homens além de Jesus. O que se estabelece não é a relação de amor que Pedro recomenda aos presbíteros, para que estes apascentem o povo com amor e reverência até que venha o Supremo Pastor:

“Portanto, apelo aos presbíteros que há entre vocês, e o faço na qualidade de presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, como alguém que participará da glória a ser revelada: pastoreiem ao rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplo para o rebanho. Quando se manifestar o Supremo Pastor, vocês receberão a imperecível coroa da glória.”,

mas sim uma relação de dominação entre o guia espiritual e o fiel, que fica alienado ao templo e a dominação dessa potestade religiosa, uma vez que são eles, os sacerdotes, que fazem a mediação deles com deus, mediante a freqüência ao templo e os sacrifícios oferecidosl.

Por outro lado, a idéia de termos um deus que habite somente o templo é bem mais confortável que a de um Deus que, não só esteja por toda a parte, mas que discirna o coração do homem de modo que este seja um eterno flagrante diante de Deus. Assim, o fiel acredita que devido à freqüência dele ao templo e a fidelidade dele para com o seu sacerdote, ele está protegido de todo o “mau” e, por isso, pode andar sobre a terra sem a consciência do Reino de Deus, pois já “pagou o seu pedágio”.

No entanto, o Senhor discerne o coração humano, e por isso falou através do profeta Isaías:

“O céu é o por meu trono, e a Terra, o estrado de meus pés. Que espécie de casa vocês me edificarão? É este o meu lugar de descanso? Não foram as minhas mãos que fizeram todas as coisas, e por isso vieram a existir? Pergunta o Senhor.”

As próximas declarações de Paulo são de igual desconforto ao espírito dos religiosos que acreditam que serviços religiosos e sacrifícios oferecidos, atraem a atenção de Deus. Senão, vejamos o que diz Paulo sobre esse “Deus desconhecido”:

“Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas.”

Novamente aqui vemos outro equívoco do espírito da religião, pois o fiel acredita que o trabalho feito na igreja, os “louvores” entoados e o dinheiro dado, atraem a atenção e a ajuda de Deus. Os serviços e ofertas praticados na igreja funcionam como os sacrifícios de bodes e touros da lei, os quais o livro de Hebreus diz que serviam somente para aliviar a mente do pecador da sua culpa durante um determinado tempo, mas não produziam uma consciência aperfeiçoada.

Jesus ensinou aos seus discípulos sobre como servir a Ele, dizendo que serviços prestados ao próximo em amor seriam aceitos como de fossem prestados a Ele:

“[…] O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram.”

e por outro lado:

“[..] O que vocês deixaram de fazer a algum destes meus pequeninos irmãos, também a mim deixaram de fazê-lo.”.

O apostolo João em sua primeira carta argumenta sobre esse assunto da forma seguinte:

“Se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.”,

pois o Amor, segundo Jesus, consiste em atitudes e não em cinismo. Portanto, não há como você amar/servir ao Deus que é Espírito, a não ser no que Ele criou e, por isso, João prossegue:

“Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus, e todo aquele que ama ao Pai ama também aquele que dEle foi gerado. “

No entanto, para o sacerdote religioso da igreja/templo não é interessante que assim seja, pois o templo/igreja é hoje apenas uma pequena empresa que não paga impostos e não produz nada. Ela sobrevive de números, resultados e estatísticas, seguindo um esquema cuidadosamente arquitetado e organizado em forma de pirâmide, cujo objetivo, além de obter lucro e poder político, é a sua auto-preservação.

Este paradigma também serve aos interesses do povo, pois este resume a sua “vida com Deus” a sua fidelidade com a igreja e com o sistema. Os sacrifícios oferecidos e os bens almejados pelo fiel resumem-se ao imediatismo deste mundo, de sorte que a grande maioria das pessoas que hoje freqüentam o templo/igreja são aquelas que não tiveram coragem de ir a Macumba, pois, em nome de Deus, o templo/igreja oferece os mesmo anseios perversos, mas tudo em nome de Deus.

Voltando ao texto em Isaías, vejamos se esse também não era o espírito da sua época e vejamos o que Deus diz, por meio de Isaías, sobre esses sacrifícios oferecidos:

“A este eu estimo: ao humilde e contrito de espírito, que treme diante da minha palavra. Mas aquele que sacrifica um boi é como quem mata um homem; aquele que sacrifica um cordeiro, é como quem quebra o pescoço de um cachorro; aquele que faz oferta de cereal é como quem apresenta sangue de porco, e aquele que queima incenso memorial, é como quem adora um ídolo.”

Oras, não consigo encontrar razões para acreditar que um Deus que seja oniciente, justo e poderoso seja comprado com dinheiro e emgambelado com teatralidades e performances apresentadas nos ambinetes religiosos. Uma citação freqüente nos lábios de Jesus, “Deus não quer sacrifícios, e sim misericórdia”, foi sintetizada pelo escritor de Hebreus, quando ele diz sobre a vida com Jesus ser “fora das portas da cidade” e também sobre os sacrifícios que seriam agradáveis a Deus:

“[…] Assim, Jesus também sofreu fora das portas da cidade, para santificar o povo por meio do seu próprio sangue. Portanto, saiamos até ele, fora do acampamento, suportando a desonra que ele suportou. Pois não temos aqui nenhuma cidade permanente, mas buscamos a que a de vir.

Por meio de Jesus, portanto, ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor, que é fruto de lábios que confessam o seu nome. Não se esqueçam de fazer o bem e de repartir com os outros o que vocês têm, pois de tais sacrifícios Deus se agrada.”

As próximas declarações de Paulo acerca do “Deus desconhecido” de certa forma confirmam o que eu disse há pouco, sobre a diferença entre um deus pagão e o Deus verdadeiro, pois ele diz:

“De um só fez Ele todos os povos, para que povoassem toda a Terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos em que devessem habitar.”

que é uma referência clara ao que escreveu o profeta Amós, onde ele diz que assim como Israel teve o seu Êxodo, quando Deus guiou o povo saindo do Egito, vários outros povos da Terra também tiveram o seu próprio Êxodo guiado por Deus:

“[…] ’Vocês israelitas, não são para mim melhores que os etíopes’, declara o Senhor. ‘Eu tirei Israel do Egito, os filisteus de Caftor e os arameus de Quir.”

Essa é uma afirmação que pode ser chocante para os acostumados com o torpor da religião, pois o que se ensina nos ambientes religiosos é que Deus tem um compromisso, atualmente com os cristãos, e no passado com os israelitas. Crêem que Deus criou alguns povos com o objetivo único de se perderem e viverem a margem do amor de Deus, confinando Deus a um território e a uma cultura.

Essa crença tem objetivo duplo, pois além de justificar o imperialismo do “povo de Deus” sobre as demais nações, também resolve o problema do mal, pois cria uma teologia de causa e efeito, justificando assim a calamidade em que os demais povos vivem. Assim, justificam a miséria, os desastres naturais, a pobreza, dentre outras coisas nesses países, dizendo que tais povos são assim porque “não servem a Deus”.

Além de tentarem esconder o fato de que a miséria, por exemplo, na África seja fruto da colonização dos calvinistas ingleses, criam uma boa desculpa para não fazerem nada com relação ao próximo. A única coisa de se jactam de fazerem é enviarem os seus “missionários” para anunciarem a “palavra de Deus”, e não o seu dinheiro para socorrerem os aflitos.

Bem, acredito que já tenha escrito de mais para um único texto. Desejo que todas as pessoas que tiverem a oportunidade de lê-lo reflitam sobre como é o Deus que elas conhecem, pois Jesus diz que no dia das Bodas, alguns que porventura “curaram”, “profetizaram” e “falaram” no seu Nome, ficariam de fora da festa. Quando esses indagarem Jesus sobre o porquê de terem ficado de fora, Jesus apenas dirá “Nunca vos conheci”.

Categorias: Meus artigos, Reflexões

Escrito por Júnior Bocelli

Júnior Bocelli tem 31 anos, é Bacharel em Física, mas se deu bem mesmo trabalhando como web designer e professor; CEO da iCriação - Sistemas Web e Desktop e funcionário público. Amante de Jesus e do Evangelho, dedica parte do seu tempo a ajudar pessoas que querem Deus, mas não suportam mais a religião.


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