Blog do Júnior Bocelli

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A vontade humana é serva de Deus ou de Satanás

De Servo Arbítrio

Apresento aqui uma análise feita no meu velho blog, sobre a vontade humana do ponto de vista de Martinho Lutero, baseada em trechos do livro “De Servo Arbítrio“.

O PROBLEMA: De onde nasce a capacidade de fazer o bem? É fruto de uma livre vontade, ou conseqüência da ajuda divina? O homem pode salvar-se sozinho contando apenas com as suas forças?

A TESE: Polemizando com a tradicional doutrina do livre-arbítrio – segundo a qual o homem não é naturalmente predisposto nem ao bem nem ao mal, de modo que a responsabilidade moral reside no livre ato de sua escolha –, Lutero sustenta uma congênita predisposição ao pecado. Recuperando temas da discussão agostiniana (ver o post anterior), afirma que somente uma visão pessimista do ser humano torna a ajuda de Deus indispensável ao homem. Considerar o homem capaz de escolher livremente entre o bem e o mal significa afirmar que ele poderia salvar-se somente com as suas forças, sem a determinante ajuda da graça divina.

A capacidade de fazer o bem não decorre da livre vontade do homem, mas somente de uma ajuda divina.

“Uma vez demonstrado que a nossa salvação depende, muito além das nossas forças e das nossas decisões, unicamente da ação de Deus, como espero provar irrefutavelmente no decorrer da polêmica, não resulta daí claramente que, enquanto Deus não está presente em nós com a sua ação, tudo o que fazemos é mal e necessariamente nós praticamos ações que não têm valor para a salvação? E que não somos nós, mas unicamente Deus que opera a salvação em nós, e que, antes da sua intervenção, não fazemos nada que tenha valor salvífico, queiramos ou não…?”

O homem é tendencialmente mau.

“Isso significa que, se o homem não tem o Espírito de Deus, certamente não faz o mal contra a sua própria vontade e à força, como que arrastado pelo pescoço, semelhante a um ladrão ou um bandido que seja obrigado contra sua vontade a cumprir pena, mas o faz espontaneamente e por sua vontade deliberada.”

Mesmo quando o homem é obrigado pela força a agir bem, continua mal dentro de si.

“Além disso, com suas próprias forças, ele não pode abandonar, constranger ou mudar essa vontade de fazer, e continua a querer e apreciar o mal; e mesmo se exteriormente é forçado a agir diferentemente, a vontade interior mantém-se antagônica e irritada contra quem a constrange ou contraria, ao passo que, se pudesse transformar-se, não se irritaria e de bom grado atenderia àquela força exterior.”

Esta consideração basta para negar o livre-arbítrio.

“É simplesmente isso o que entendemos por necessidade – ou seja, o fato de que a vontade não pode ser transformada e voltada em outra direção, mas antes, quando contrariada, é estimulada ainda mais a querer, como demonstra a sua irritação. O que não aconteceria, se ela fosse livre ou tivesse o livre-arbítrio…”

Somente a graça divina nos induz ao bem.

“Em sentido inverso, quando Deus atua em nós, a vontade, transformada e amorosamente inspirada pelo Espírito de Deus, atua e quer por puro prazer, simpatia e espontaneidade, não mais constrangida, e não podendo ser vencida ou contida nem mesmo pelas portas do inferno, persevera em querer, apreciar e amar o bem…”

O homem pode sair do mundo somente com o auxílio de Deus.

“Em suma, se nós estamos sob o domínio do deus deste mundo, sem o socorro e o Espírito do Deus verdadeiro, somos mantidos prisioneiros do seu querer, como diz Paulo a Timóteo, pois não podemos querer senão o que ele quer. Porque ele, Satanás, é aquele forte homem armado, que vigia ao átrio da sua casa de modo a manter submetidos aqueles a quem possui para que não suscitem nenhuma rebelião ou qualquer sentimento que lhe seja contrário; de outra forma não poderia subsistir aquele reino de Satanás, que Cristo afirma subsistir.”

O homem não pode opor-se ao mal (Satanás) somente com suas forças.

“Deste modo, nós fazemos, de bom grado, da vontade de Satanás a nossa vontade, que certamente não seria vontade se fosse constrangida; a coação é muito mais uma não-vontade. Mas, se alguém mais forte, vencido Satanás, nos leva embora como sua presa, somos servos novamente, mas para o Espírito, servos e prisioneiros do vencedor (e, então, trata-se de uma liberdade régia), de tal modo que queremos e fazemos de boa vontade aquilo que Ele, o Vencedor, quer.”

O homem deve escolher entre duas servidões: ou Deus ou Satanás.

“Assim, a vontade humana é colocada entre os dois como um jumento, que, se montado por Deus, quer ir e vai aonde Deus quer, como diz o Salmo: Eu tornei-me como um jumento e estou sempre contigo; se, ao contrário, for Satanás a montá-lo, então quer ir e vai aonde Satanás quer, e não é sua faculdade de correr e buscar um ou outro cavaleiro, mas os dois cavaleiros disputam entre si para tê-lo e possuí-lo…”

Não existe uma livre vontade do homem.

“Daí resulta que o livre-arbítrio, sem a graça de Deus, não é absolutamente livre, mas eternamente prisioneiro e escravo do mal, não podendo por si só se voltar para o bem.”

A liberdade de Deus e do homem excluem-se reciprocamente.

“Temos então que o livre-arbítrio é um atributo divino, que pertence tão-somente à majestade divina a qual pode e faz tudo o que quer no céu e na terra. E, se fosse conferido aos homens, seria como conferir a eles a própria divindade, o que seria o mais grave sacrilégio possível.”

O livre-arbítrio é somente de Deus.

“Portanto, os teólogos deveriam abster-se desse termo ao falar das capacidades humanas e reservá-lo a Deus; deveriam eliminá-lo da boca e dos discursos dos homens e, como nome sagrado e venerável, atribuí-lo a Deus, a quem pertence.”

Por trás da idéia de livre-arbítrio esconde-se a presunção humana.

“E, se os teólogos quisessem mesmo atribuir uma certa força aos homens, deveriam tê-la definido com um vocábulo diferente de livre-arbítrio, tanto mais que se reconheceu e constatou como o povo se deixa enganar e desviar por esse vocábulo, uma vez que o interpreta de modo diferente de como o interpretam os teólogos. Livre-arbítrio é uma palavra imponente demais, grandiosa; e o povo considera que ela significa, pela natureza e extensão de termo, uma tal energia que pode dirigir-se livremente a Deus ou a Satanás, sem se deixar submeter a nenhum deles.”

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Escrito por Júnior Bocelli

Júnior Bocelli tem 31 anos, é Bacharel em Física, mas se deu bem mesmo trabalhando como web designer e professor; CEO da iCriação - Sistemas Web e Desktop e funcionário público. Amante de Jesus e do Evangelho, dedica parte do seu tempo a ajudar pessoas que querem Deus, mas não suportam mais a religião.


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